Saúde mental na menopausa: saiba os tratamentos para os sintomas emocionais para o fim da fase reprodutiva

A médica Dra. Isabel Martinez afirma que os sintomas emocionais da transição hormonal podem ser confundidos com burnout ou depressão comum — e milhões de mulheres sofrem sem saber a causa

A menopausa pode afetar consideravelmente a saúde mental. Os números são alarmantes. Segundo o estudo Menopause Experience & Attitudes, realizado pela Astellas em seis países incluindo o Brasil, com quase 14 mil participantes, 65% das mulheres vivenciaram sentimentos psicológicos negativos devido à menopausa. Dessas, 41% relataram ansiedade, 33% depressão, 24% constrangimento e 11% vergonha. Mas aqui está o problema: quantas delas sabiam que esses sentimentos tinham uma causa hormonal tratável?

De acordo com a médica, especialista em saúde feminina, Dra. Isabel Martinez, sintomas emocionais da transição hormonal podem ser confundidos com burnout ou depressão comum — e milhões de mulheres sofrem sem saber a causa. Ela conta que vivenciou isso. 

“Eu sei exatamente o que é acordar e ver o mundo em tons de cinza. Perder a vontade de fazer as coisas que antes me davam prazer. Procrastinar tarefas simples por dias. Olhar para a agenda e sentir um cansaço que não passa com sono. Passei por isso. E durante um bom tempo, não fazia ideia de que algo estava acontecendo comigo.

Há 11 anos, aos 38, entrei na menopausa precoce. E descobri, na própria pele, o que milhões de mulheres enfrentam silenciosamente: sintomas emocionais que ninguém associa à queda hormonal”.

Ao longo de mais de 20 anos de prática clínica, Dra. Isabel acompanhou milhares de mulheres que chegavam ao consultório com queixas aparentemente estéticas: queda de cabelo, o rosto que “derreteu”, a pele que mudou. 

“Tratávamos. Melhorava. Mas havia algo que me intrigava profundamente: muitas delas não conseguiam ficar genuinamente felizes com a melhora. Não era o tratamento que falhava — era a vida delas. O que antes as fazia vibrar, sentir alegria verdadeira, simplesmente não fazia mais. Aquele brilho no olho tinha apagado. Até hoje, ao conversar com minhas pacientes, tenho insights sobre minha própria vida. É uma via de mão dupla. 

Ela conta que, por isso, gosta de abordar o assunto. “Precisamos aprender a nos autoperceber. Muitas mulheres vivem nesse movimento de ver o mundo cinza e não se dão conta. Param de se cuidar. Param de sonhar coisas novas. Param de se olhar no espelho. Muitas vezes, pergunto: quando foi a última vez que você se sentiu linda? E o silêncio que vem antes da resposta diz tudo. Então, deixa eu te dizer com clareza: você não está ficando louca. Você não é preguiçosa. Você não está fraca. Seu cérebro está passando por uma revolução química — e isso precisa ser tratado”.

Segundo a médica, quando o estrogênio começa a cair, não é apenas o corpo que sente. O cérebro é profundamente afetado. “O estrogênio é um regulador essencial de neurotransmissores como a serotonina — aquela substância que nos faz sentir bem, motivadas, com energia para enfrentar o dia. Quando ele diminui, a serotonina também cai. A progesterona, por sua vez, ajuda a regular o GABA, um neurotransmissor calmante natural. Sem ela, a ansiedade aumenta, o sono piora, a irritabilidade explode”.

Ela afirma que, com esse resultado, a mulher pode apresentar sintomas idênticos aos de um burnout: exaustão, dificuldade de concentração e sensação de estar no piloto automático. 

“Ou sintomas que se confundem com depressão: tristeza persistente, perda de interesse, isolamento. Muitas mulheres passam anos sendo tratadas apenas com antidepressivos, sem nunca investigarem a causa hormonal. Funciona parcialmente, mas não resolve a raiz do problema”.

Os caminhos do tratamento

A boa notícia é que existem várias opções terapêuticas — e elas podem ser combinadas de acordo com a necessidade de cada mulher. Dra. Isabel esclarece que antidepressivos, especialmente os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), são frequentemente a primeira linha de tratamento e funcionam para muitas pacientes.

“No entanto, durante a menopausa, a resposta nem sempre é tão robusta quanto esperada, justamente porque o problema não é apenas bioquímico — é hormonal”, complementa. 

A terapia hormonal tem mostrado resultados promissores. Um estudo clínico randomizado publicado no Archives of General Psychiatry por Soares e colaboradores, em 2001, demonstrou que o estradiol transdérmico pode ser efetivo em reduzir sintomas depressivos em mulheres na perimenopausa. As diretrizes internacionais de especialistas, publicadas por Maki e colaboradores em 2019 no Journal of Women’s Health, indicam que a terapia hormonal pode ser considerada para depressão perimenopausal, particularmente quando há também sintomas vasomotores como ondas de calor.

“É importante ressaltar que as diretrizes brasileiras da FEBRASGO e SOBRAC ainda não indicam a terapia de reposição hormonal como tratamento primário para depressão ou ansiedade — por isso, cada caso deve ser avaliado individualmente, pesando riscos e benefícios. Frequentemente, a combinação de terapia hormonal com antidepressivos oferece os melhores resultados”, explica a especialista em saúde feminina.

Dra. Isabel Martinez afirma que a psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, é uma aliada poderosa. “Ela ajuda a desenvolver estratégias para lidar com os sintomas, reconhecer padrões de pensamento negativo e construir resiliência emocional. E não podemos esquecer do exercício físico: estudos consistentes mostram que a atividade física regular reduz significativamente a ansiedade, o estresse e os sintomas depressivos. Mulheres que se exercitam durante a menopausa relatam menos sintomas psicológicos”.

Há ainda abordagens emergentes em pesquisa, como as terapias transcranianas — estimulação magnética transcraniana e estimulação por corrente contínua — que atuam diretamente no cérebro sem medicação. “Estudos preliminares mostram resultados promissores em mulheres que não respondem bem aos tratamentos convencionais”.

Abuso de álcool na menopausa

Segundo a Dra. Isabel, durante a menopausa, muitas mulheres recorrem ao álcool como uma forma de lidar com os sintomas emocionais. Ela diz que é compreensível, já que o álcool oferece alívio temporário da ansiedade e do humor deprimido. 

“as o álcool é um depressor do sistema nervoso central. Embora traga alívio imediato, a longo prazo ele piora significativamente a depressão e a ansiedade, prejudica a qualidade do sono (que já é um desafio nessa fase) e pode desencadear ou intensificar as ondas de calor., esclarece.

Uma pesquisa recente de Davies e colaboradores, publicada em 2025 na revista Women’s Health, mostrou que mulheres com maior consumo de álcool durante a menopausa tendem a relatar piores sintomas menopausais, maior negatividade afetiva, maior sensação de solidão e menor bem-estar geral. 

“Os motivos para beber também mudam — passando de social para “escapar de emoções ruins”. Se você se reconhece nesse padrão, vale a pena conversar com um profissional”, enfatiza. 

Você não precisa passar por isso sozinha

A médica aconselha a nenhuma mulher na menopausa aceitar o rótulo de “estressada” ou “em burnout” sem antes investigar seu perfil hormonal. “Não normalize a tristeza como parte inevitável do envelhecimento. Cada mulher é diferente. O que funciona para uma pode não funcionar para outra. Por isso é fundamental uma avaliação individual com um profissional de saúde que entenda de menopausa e saúde mental. O primeiro passo é reconhecer que algo mudou. O segundo é buscar ajuda. Você merece ter as cores de volta”, finaliza. 

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