CEO e Founder da Loupit, Travel Tech e marketplace de viagens corporativas, analisa mudanças nos créditos tributários, documentos fiscais e critérios de contratação de agências
A reforma tributária nas viagens corporativas exige que as empresas revisem a forma como contratam serviços, conferem documentos e calculam o custo dos deslocamentos profissionais. Para Patrick Tytgadt, CEO e Founder da Loupit, a preparação deve começar na gestão de viagens, antes que as despesas cheguem ao fechamento financeiro.
Na avaliação do executivo, a transição para a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) aumenta a importância de conectar as decisões de compra às informações necessárias para a análise fiscal.
Nesse cenário, uma Travel Tech pode ajudar a organizar os dados da contratação, das aprovações e da prestação de contas. Segundo Tytgadt, essa integração facilita o acompanhamento das despesas e a identificação de divergências entre o que foi contratado, cobrado e documentado.
“A empresa precisa conseguir acompanhar cada despesa desde a contratação até a conferência do documento correspondente. Quando os dados estão incompletos na origem, o financeiro acaba dedicando tempo a corrigir problemas que poderiam ter sido evitados”, afirma Tytgadt.
O tema ganha peso diante do volume movimentado pelo setor. Segundo levantamento mensal da Abracorp (Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas), as agências associadas faturaram R$ 11,07 bilhões entre janeiro e setembro de 2026, alta de 7,41% sobre o mesmo período de 2025. Os serviços aéreos responderam por cerca de 60% dessa receita.
Como será a transição da reforma tributária
A CBS é federal e substitui PIS e Cofins. O IBS, de competência compartilhada entre estados, municípios e Distrito Federal, substitui gradualmente ICMS e ISS.
Em 2026, o sistema passa por testes, com alíquotas gerais de 0,9% para a CBS e de 0,1% para o IBS. Os contribuintes que cumprirem as obrigações acessórias aplicáveis ficam dispensados do recolhimento.
A CBS substitui PIS e Cofins em 2027. Entre 2029 e 2032, ocorre a redução gradual de ICMS e ISS, acompanhada da ampliação do IBS. A conclusão dessa transição está prevista para 2033.
Para Tytgadt, esse calendário exige planejamento dos processos e dos sistemas. Durante a transição, as equipes precisarão compreender a convivência dos tributos e acompanhar as exigências aplicáveis a cada fornecedor.
A preparação ainda está em andamento em boa parte das companhias. A pesquisa Panorama da Reforma Tributária 2026, da Grant Thornton em parceria com a ANEFAC (Associação Nacional de Executivos), ouviu 115 empresas entre abril e junho de 2026. O estudo mostra que 14% se consideram muito preparadas para a implementação da reforma, embora 77% já tenham concluído ou estejam realizando simulações de impacto.
Uma mesma viagem pode reunir tratamentos tributários diferentes
Um dos pontos que exigem atenção está no aproveitamento de créditos. A legislação permite créditos relativos à intermediação prestada por agência de turismo, observadas as condições legais. Entretanto, veda o crédito ao adquirente de hospedagem e de alimentação e bebidas no regime específico de bares e restaurantes.
Isso significa que uma reserva de hotel intermediada por uma agência de viagens corporativas reúne serviços com tratamentos distintos. O eventual crédito sobre a intermediação não se estende à diária.
A hospedagem tem participação expressiva nos gastos com deslocamentos profissionais. Em setembro de 2026, a hotelaria concentrou cerca de 29,5% da receita das agências associadas à Abracorp e 57,4% do volume de transações, de acordo com a entidade.
O mapeamento desses créditos também está no início para muitas empresas. Segundo a pesquisa da Grant Thornton e da ANEFAC, 19% concluíram o mapeamento da cadeia de suprimentos e dos créditos tributários potenciais, enquanto 45% realizam análises parciais.
“O orçamento de viagens precisa refletir os créditos que a empresa pode efetivamente aproveitar. Tratar toda a fatura como crédito recuperável distorce a análise do custo”, explica o executivo.
A orientação é que a gestão de viagens organize as informações por natureza da despesa e que a área fiscal valide o enquadramento de cada operação, considerando o regime tributário e a documentação exigida.
A fatura consolidada não substitui os documentos fiscais
Uma cobrança pode reunir passagens, hospedagens e taxas de serviço. Essa consolidação facilita o pagamento, mas não substitui os documentos fiscais aplicáveis a cada contratação.
Segundo Tytgadt, o gestor precisa conseguir relacionar o valor cobrado ao serviço prestado, ao fornecedor e ao documento correspondente. O processo também deve permitir acompanhar cancelamentos e correções, evitando divergências entre a operação de viagens e o financeiro.
O cronograma da Receita Federal e do Comitê Gestor do IBS estabelece 1º de dezembro de 2026 como início da obrigatoriedade do Bilhete de Passagem Eletrônico, o BP-e, para o transporte aéreo de passageiros. A mesma data consta para a NFS-e nas locações de bens móveis, categoria que abrange a locação de veículos.
O que avaliar ao contratar uma agência de viagens corporativas
Na análise do fundador da Loupit, a reforma acrescenta critérios concretos à avaliação dos parceiros. Além das tarifas e do atendimento, a empresa deve estabelecer como receberá as informações necessárias para conferir suas despesas.
“Na contratação de uma agência, o gestor deve combinar prazos para entrega dos documentos, correção de divergências e atualização de cancelamentos. Esses pontos precisam fazer parte da avaliação do serviço”, recomenda.
A comparação entre propostas deve considerar o preço final, as taxas de intermediação, as condições comerciais e os créditos efetivamente permitidos. A análise tributária deve ser validada pela equipe fiscal antes de integrar projeções de economia.
Como preparar a gestão de viagens corporativas
Tytgadt aponta cinco medidas para organizar a adaptação:
Revisar os cadastros: conferir os dados das empresas adquirentes e dos viajantes antes da contratação.
Definir responsabilidades: estabelecer quem recebe, confere e solicita correções dos documentos.
Revisar os contratos: combinar com as agências os prazos e as informações que acompanharão as cobranças.
Preparar os sistemas: verificar se o ERP e as integrações recebem os novos campos tributários.
Reavaliar os indicadores: distinguir o valor pago dos créditos admitidos e acompanhar pendências documentais.
Para o executivo, esses controles permitem identificar onde surgem divergências e agir sobre sua origem, em vez de repetir correções a cada fechamento.
A adaptação dos sistemas é um dos pontos de atenção. No levantamento da Grant Thornton e da ANEFAC, 24% das empresas afirmam que seus sistemas de ERP e tecnologia fiscal estão plenamente preparados para IBS e CBS, e 63% apontam lacunas relevantes a resolver.
O atendimento fora do horário comercial também precisa seguir os procedimentos
Remarcações, cancelamentos e novas reservas podem ocorrer à noite, nos fins de semana e nos feriados. Essas operações precisam manter os mesmos cuidados de registro e encaminhamento de informações adotados durante o expediente.
Nesse contexto, a terceirização de atendimento para turismo pode integrar a estratégia de continuidade operacional das agências. O escopo contratado deve definir como registrar alterações, identificar cobranças adicionais e encaminhar pendências documentais às equipes responsáveis.
Para Tytgadt, a qualidade do atendimento também depende dessa continuidade: uma alteração resolvida no plantão precisa chegar corretamente registrada ao financeiro no dia seguinte. A conferência tributária e a decisão sobre créditos permanecem sob responsabilidade das áreas fiscal e contábil.
Como a tecnologia pode apoiar essa organização
A tecnologia pode reunir informações da contratação, das aprovações e da prestação de contas em um mesmo ambiente. No modelo de marketplace de viagens corporativas da Loupit, as empresas podem comparar ofertas de diferentes agências selecionadas e centralizar políticas e informações de viagens e despesas.
Essa estrutura permite distribuir compras entre parceiros mantendo a gestão na plataforma. O canal de contratação, entretanto, não altera as regras de crédito do serviço adquirido.
“O papel da tecnologia é ajudar a empresa a enxergar e organizar suas operações. A decisão tributária continua dependendo da análise fiscal, mas essa análise precisa receber informações completas e consistentes”, conclui Tytgadt.
Patrick Tytgadt é CEO e Founder da Loupit, Travel Tech com marketplace de viagens corporativas e recursos de gestão de viagens e despesas. A plataforma conecta empresas a agências parceiras e reúne comparação de ofertas, políticas corporativas, aprovações e relatórios.
