Em clubes sem divisão nacional, os contratos assinados no início de 2026 duraram em média 5,6 meses e pagaram menos que o rendimento médio do país. Sócios da Empregol que vivem ou viveram essa rotina em campo querem dar visibilidade e acompanhamento a quem está entre um clube e outro.
A maior edição da história da Série D do Campeonato Brasileiro, com 96 clubes, terminou em 13 de setembro. Para a maior parte dos jogadores desses elencos, porém, a temporada acabou bem antes da final. Quando o clube sai do calendário nacional, muitos contratos acabam junto, e começa um período que o futebol conhece bem e discute pouco: a entressafra. Para clubes sem divisão nacional, o ano muitas vezes se resume ao estadual. No Rio, o Campeonato Carioca de 2026 durou menos de dois meses, de 11 de janeiro a 8 de março.
Os números oficiais ajudam a medir essa instabilidade. Segundo o Relatório de Transferências 2026 da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), feito em parceria com a CBF Academy, os contratos domésticos assinados na primeira janela do ano por clubes da Série D duraram em média nove meses, com remuneração média de R$ 44 mil por ano. Nos clubes sem divisão nacional, a média caiu para 5,6 meses e R$ 35 mil anuais, cerca de R$ 2,9 mil por mês. O valor fica abaixo do rendimento médio do trabalhador brasileiro, de cerca de R$ 3,7 mil, segundo a PNAD Contínua do IBGE.
O próprio relatório descreve o quadro como o de “contratos precários, típicos de jogadores em busca de recolocação e de clubes com calendário de competições mais limitado”. E não se trata de uma minoria. Levantamento da consultoria EY para a CBF, divulgado em 2019, contou cerca de 360 mil atletas registrados no país, dos quais 88 mil profissionais. Só 11,7 mil tinham contrato ativo na data do estudo, e, entre eles, 55% recebiam até R$ 1 mil por mês. No futebol feminino, eram apenas 132 jogadoras com contrato ativo em todo o país.
Três dos quatro sócios da Empregol conhecem essa rotina por dentro. Léo Vieira está em atividade no Portimonense, de Portugal. Matteo Zatorre jogou no Santos. Hygor Ribeiro, CEO da empresa, jogou profissionalmente por clubes como Desportivo Brasil, América de Natal e Noroeste. O quarto sócio, Caio Vieira, cuida da área comercial.
Para quem está em atividade, a preocupação começa antes do fim do contrato. Jogar é o que mantém o atleta no radar, e cada minuto em campo pesa na próxima negociação. “Quando o contrato vai chegando ao fim, a cabeça já está no que vem depois. Você não sabe se vai continuar jogando nem se vai ter salário daqui a alguns meses. Por isso estar em campo, somando minutos, faz tanta diferença”, diz Léo.
Matteo conhece o outro lado, o de quem deixou os gramados. “A gente sentiu na pele o que é estar sem contrato, sem clube, sem saber para onde ligar. Sentimos o silêncio depois que o telefone para de tocar”, conta.
O intervalo entre dois contratos costuma ser tratado como uma questão de emprego, mas cobra em várias frentes ao mesmo tempo. Sem clube, o jogador perde a estrutura de treino e o acompanhamento de comissão técnica e departamento médico, fica sem salário e precisa se manter em condição de jogo para uma proposta que pode aparecer a qualquer semana. O custo emocional também está documentado. Em 2015, um estudo da FIFPro, entidade internacional que representa os jogadores profissionais, identificou sintomas de depressão ou ansiedade em 38% dos 607 atletas em atividade ouvidos. “O período sem clube cobra da cabeça tanto quanto do corpo”, diz Matteo.
Foi dessa experiência que nasceu a Empregol, plataforma que chega ao mercado em outubro e conecta jogadores e jogadoras sem contrato ativo a clubes e agentes. O atleta cria um perfil com posição, dados físicos, estatísticas e vídeos com seus melhores lances, que passa por checagem de identidade e de documentos. A partir daí, recebe contato de agentes e clubes verificados direto no chat da plataforma, onde também conversa com a equipe da Empregol.
A proposta vai além da vitrine. No plano premium, o atleta pode contratar sessões com profissionais parceiros, de saúde mental a jurídico, financeiro e preparação física, a preço corporativo, e mantém esse acesso depois de assinar com um novo clube. A assinatura vai de R$ 24,90 a R$ 79,90 por mês, conforme o plano, e o lançamento terá um período gratuito.
A empresa diz dar atenção especial a atletas que vêm de contextos vulneráveis, para quem a falta de renda na entressafra pesa mais. A ideia, segundo os sócios, é que o jogador não seja só visto, mas acompanhado de perto. “Nenhum atleta deveria ficar invisível só porque está entre um contrato e outro”, afirma Léo.
Com o fim da Série D e os estaduais de 2027 ainda por começar, milhares de jogadores procuram clube ao mesmo tempo nestas semanas. Num país que forma milhares de atletas todos os anos, fica a pergunta: quantos talentos o futebol perde não por falta de qualidade, mas por falta de quem os enxergue entre um contrato e outro?
