Leo Bentier aposta R$100 milhões na categoria que falta ao sistema financeiro
O motor tributário segue trancado. O que abre é outra camada: uma mesa e um balcão para formar, certificar e equipar Operadores Financeiros Independentes, sem venture capital
Em junho, Leo Bentier explicou nesta mesma coluna por que fechou a porta da Seferu. “No dia em que eu vendo o motor, fabrico meus concorrentes”, disse na ocasião, ao justificar a decisão de transformar sua plataforma de inteligência tributária em ferramenta proprietária, apontada para um único alvo: as empresas “chatas”, estáveis, lucrativas e mal organizadas que o mercado nunca soube precificar.
Seis semanas depois, Bentier anuncia uma abertura.
A contradição é aparente, e ele a enfrenta de imediato. “O motor continua trancado. O que abre é outra coisa”.
O que abre, segundo ele, é o problema que o próprio motor revelou.
O que a máquina encontrou
Ao rodar a ferramenta sobre milhares de pequenas e médias empresas brasileiras, Bentier diz ter confirmado a tese original de valor soterrado em desorganização fiscal, regime errado e crédito não aproveitado, mas esbarrou num fato que a tese não previa.
“A esmagadora maioria desses empresários não quer vender a empresa. Quer ser organizada e financiada. E não existe ninguém preparado e equipado para fazer isso pela vida inteira dele”.
O diagnóstico tributário, explica, era só a primeira camada. Depois dele apareciam o crédito mal contratado, o seguro inadequado, o patrimônio improdutivo, a falta de liquidez, o investimento desconectado do negócio. “O empresário não vive em departamentos separados. Mas todo mundo que o atende, vive”.
Nenhum capital próprio compra o país inteiro. Diante de um universo de empresas muito maior do que qualquer capacidade de aquisição, Bentier decidiu construir a segunda camada da Seferu: não o motor que precifica empresas para ele comprar, esse segue fechado, mas a infraestrutura para uma categoria de profissionais capaz de atender os donos que não estão à venda.
Ele os chama de Operadores Financeiros Independentes.
Um mercado cheio de profissionais, sem uma categoria
Os números explicam a aposta. O Brasil tem uma rede de mais de 200 mil pontos de atendimento de correspondentes bancários, segundo o Banco Central. A Susep (Superintendência de Seguros Privados) registrou em fevereiro a marca histórica de 150 mil corretores de seguros em plena atividade. A Ancord (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias) contabiliza 27,7 mil assessores de investimento credenciados, cerca de 20 mil deles na ativa. E o sistema de consórcios bateu recorde atrás de recorde: 12,9 milhões de participantes ativos e R$179 bilhões em créditos comercializados apenas no primeiro quadrimestre de 2026, segundo a ABAC (Associação Brasileira das Administradoras de Consórcios).
É gente demais para categoria nenhuma.
“O mercado é muito fragmentado. Cada um desses profissionais enxerga apenas uma parte da vida financeira do cliente. O vendedor de consórcio conhece um produto. O assessor opera a prateleira de uma plataforma. O correspondente distribui as operações de um banco. O planejador faz o diagnóstico e não tem como executar. Há excelentes profissionais em todas essas funções. O que não existe é a infraestrutura que reúna as competências”, afirma Bentier.
“Não estou inventando uma profissão. Estou dando nome, escada e infraestrutura a uma que já existe sem os três”.
O nome da categoria, aliás, é novo. “Operador financeiro”, sozinho, consta na Classificação Brasileira de Ocupações: designa o profissional de mesa de corretora, que compra e vende títulos e moedas. “Consultor financeiro independente” também existe: é o consultor de valores mobiliários registrado na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), proibido de receber comissões. O composto “Operador Financeiro Independente” não consta em registro profissional nenhum. É a esse vazio que Bentier deu nome, e ele afirma que não pretende registrá-lo como marca.
“A categoria precisa ser de todos, ou não é categoria. O que é da Seferu é a formação, a certificação e a mesa. O nome, eu quero ver impresso em cartão de visita que nunca passou pela gente. No dia em que um concorrente usar o termo, a tese venceu”.
A tese que ele defende desde 2014, quando escreveu que “o banco do futuro poderá estar dentro de um telefone; o banqueiro do futuro estará ao lado do cliente”, ganhou, em julho de 2026, sua formulação definitiva numa carta aos leitores: “O banco será infraestrutura. O operador será a instituição”.
O regulador construiu o trilho
Bentier faz questão de dizer que a tese não é uma aposta contra o sistema. É uma leitura da direção que o próprio sistema escolheu.
Nos últimos dez anos, o Banco Central executou uma agenda que, peça por peça, enfraqueceu o monopólio da relação bancária. O Pix comoditizou o pagamento. O Open Finance transformou o dado bancário em bem portátil do cliente. A portabilidade de crédito e de salário reduziu o custo de trocar de instituição. E, em 2023, a CVM autorizou o multivínculo dos assessores de investimento e, pela primeira vez, um profissional pôde se ligar a mais de uma corretora.
“Cada uma dessas medidas responde à mesma pergunta: a quem pertence o cliente? A resposta do regulador tem sido, consistentemente, a mesma: ao cliente. Eu não estou apostando contra os bancos. Estou apostando a favor da direção que o regulador já escolheu. Só estou construindo o que falta na ponta: a pessoa equipada para exercer essa liberdade em nome de quem não tem tempo de exercê-la sozinho”.
O precedente que o Brasil construiu pela metade
A tese tem lastro fora do país. Nos Estados Unidos, a migração de assessores para o modelo independente criou uma indústria inteira de infraestrutura, com plataformas que entregam a profissionais autônomos o backoffice, a tecnologia e o acesso a produtos que antes só um grande banco oferecia. Somadas, essas empresas valem dezenas de bilhões de dólares.
O Brasil, diz Bentier, construiu a versão incompleta.
“Nós criamos dezenas de milhares de ‘independentes’ presos a uma única prateleira. Independência de crachá, não de balcão. O profissional saiu do banco, mas continuou vendendo a prateleira de alguém. O operador que estamos formando pode comparar instituições, essa é a diferença inteira”.
Há uma segunda diferença, e ela é de ambição. O assessor independente americano cuida, essencialmente, do investimento. O Operador Financeiro Independente, no desenho da Seferu, cuida do balanço inteiro: crédito, consórcio, seguro, patrimônio, estrutura tributária. “É uma categoria mais difícil de formar. Por isso, ela precisa de uma mesa, não de uma planilha”.
Uma mesa e um balcão
A nova camada da Seferu terá duas estruturas complementares.
A primeira é a mesa de decisão. Nela, o operador reúne dados tributários, patrimoniais e financeiros do cliente; organiza documentos; identifica necessidades; compara alternativas de diferentes instituições; registra por que recomendou cada solução, inclusive quando a recomendação é não contratar nada, e acompanha as consequências de cada decisão.
A segunda é o balcão financeiro: produtos de diferentes instituições (consórcio, crédito, financiamento, seguro, investimento, soluções empresariais) acessados por meio de instituições licenciadas e de seus registros legais.
O acesso ao balcão não será automático. Antes de operar, cada profissional passará por validação de identidade e reputação, formação e certificação. Produtos mais complexos exigirão níveis adicionais. E Bentier faz questão de uma distinção: a certificação da Seferu não substitui os registros exigidos por Banco Central, CVM e Susep, ela começa onde a exigência legal termina.
“Não queremos dar uma prateleira maior a quem já vende mal. A mesa existe para compreender. O balcão existe para executar. A ordem não pode ser invertida”.
Descobrir. Operar. Representar.
A formação seguirá uma progressão de três verbos.
Descobrir é identificar problemas e oportunidades na vida econômica de empresas e famílias, e o calendário nacional acaba de escancarar essa porta. Em 2026, ano-teste da reforma tributária, as empresas do regime regular passaram a conviver com o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). A partir de 3 de agosto, essas empresas não poderão emitir os documentos fiscais eletrônicos abrangidos pelas novas regras sem preencher os campos do IBS e da CBS, e documentos incompletos passam a ser rejeitados. “Milhões de empresas vão descobrir, na nota fiscal, que estão desorganizadas. Quem souber ler essa desorganização vai enxergar tudo o que vem depois dela: o crédito, o seguro, o patrimônio, a sucessão”.
Operar é acessar produtos de diferentes instituições e executar a solução adequada.
Representar é o estágio final: assumir a relação contínua com o cliente, respondendo por decisões que ultrapassam qualquer venda isolada.
R$100 milhões, e nenhum investidor
Para financiar a Seferu, Bentier decidiu comprometer R$100 milhões de capital próprio. Não haverá rodada de venture capital. Não haverá fundo no quadro societário. Não haverá instituição financeira com participação na empresa. Depois da fase de construção, a Seferu deverá se autofinanciar.
“Não faria sentido criar uma empresa para defender a independência dos operadores e, antes mesmo do lançamento, entregar essa independência a investidores externos”.
O raciocínio é estrutural. Cada banco, administradora e seguradora quer ampliar a distribuição dos próprios produtos; ter capital dessas organizações comprometeria a neutralidade do balcão. E o venture capital, com sua necessidade de crescimento acelerado, tende a premiar volume e monetização rápida, exatamente os incentivos que transformam independência em discurso.
“Uma plataforma que ganha mais quando o operador vende mais corre o risco de virar aquilo que diz combater. Quero liberdade para construir mecanismos que também permitam dizer: não contrate”.
Há ainda uma razão de calendário. “Categoria não se cria num ciclo de fundo. Cria-se numa década. Só capital que não tem pressa consegue financiar isso”.
O padrão Palantir
Para a camada tecnológica da mesa, Bentier buscou a Palantir.
O momento explica o alvo. A empresa americana, que mantém subsidiária em São Paulo desde 2014, acaba de anunciar seu primeiro cliente comercial na América Latina: a GNP, maior seguradora do México, que passou a usar as plataformas Foundry e AIP para unificar dados de sinistros, subscrição e risco.
O que atrai Bentier é a arquitetura. A tecnologia da Palantir organiza a empresa como uma ontologia (clientes, empresas, produtos, propostas e decisões viram objetos conectados, não linhas soltas em tabelas) e permite que informações hoje fragmentadas entre planilhas, sistemas bancários e documentos sejam reunidas numa única estrutura de decisão.
“A maioria dos sistemas financeiros registra o que aconteceu. Nós precisamos de uma mesa que ajude o operador a decidir o que deve acontecer depois”.
A tecnologia, contudo, não substitui o julgamento. A tese é a oposta: quanto mais automatizadas ficarem a custódia, a liquidação e a execução, maior o valor de quem conhece o cliente e responde pessoalmente pela recomendação.
O mercado de limões do conselho
Para explicar por que certificação, registro e transparência não são burocracia, Bentier recorre a um economista.
Em 1970, George Akerlof, que mais tarde receberia o Nobel, descreveu o “mercado de limões”: quando o comprador não consegue distinguir a qualidade do que compra, o produto ruim expulsa o bom, porque o bom não consegue cobrar pelo que vale.
“O aconselhamento financeiro no Brasil é um mercado de limões. O cliente não distingue conselho de venda disfarçada. Resultado: o profissional honesto não consegue cobrar pelo que sabe, e o desonesto prospera. Registro de decisão, transparência de comissão e certificação existem para separar um do outro. É isso que devolve preço ao conselho bom”.
Não é para todos
A Seferu aceitará desde profissionais experientes até pessoas sem passagem pelo sistema financeiro tradicional, como vendedores, contadores, consultores, gente que já tem a confiança de sua comunidade. Mas não promete transformar ninguém automaticamente em operador.
“Não será preciso ter começado num banco para se tornar um banqueiro. Será preciso provar que você consegue aprender, operar com responsabilidade e responder pelo próprio nome”.
Parte dos profissionais, admite, vai preferir continuar vendendo um único produto e caçando o próximo fechamento. Outros não aceitarão declarar comissões nem registrar recomendações. “A Seferu é para quem quer fazer a transição de vendedor de produtos a representante de clientes, assim como faziam os banqueiros antigamente”.
O acesso começa pela newsletter
A primeira turma será limitada, e os convites não sairão por publicidade. Os leitores da newsletter de Leo Bentier, onde as cartas que deram origem à tese foram publicadas antes de a plataforma existir, terão prioridade no acesso antecipado e na seleção para a formação.
Não haverá garantia de entrada. A newsletter é o primeiro filtro.
“Quem acompanhou o raciocínio antes de existir o produto provavelmente entende que não estamos criando mais uma plataforma de vendas”.
Os interessados podem se inscrever em leobentier.com.
Em junho, a pergunta que Bentier deixou no ar era se o valor que ele encontra nas empresas dos outros estaria, também, parado dentro da sua. A resposta, agora, tem um desdobramento: para algumas, ele continuará sendo o comprador do outro lado da mesa. Para todas as outras, está armando quem vai representá-las.
Se a tese estiver certa, a próxima grande rede financeira do Brasil não será formada por agências. Será formada por nomes.
Seferu. A mesa de decisão para Operadores Financeiros Independentes.
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